O prazer do desagradável

“…A gente se propôs o desafio de criar uma história onde umas peças de madeira pintadas conseguiriam provocar desgosto no espectador…”

“Violeta, a pescadora do mar negro” é um curta metragem com a direção dos espanhóis Anna Solanas e Marc Ribas, produzido por I+G Stopmotion,  feito no projeto de curtas da semana de cinema de terror de Donosti, em 2006.  Durante 540 segundos de projeção, um tétrico claro escuro caravaggiano é o palco da vida de uma menina cujos relacionamentos estão sujeitos a um amor arrepiante e enfermiço, que provocará nos espectadores paralisia física e convulsão mental e sensitiva durante aqueles 9 minutos.

A principal influência desta animação provém das experiências neste campo realizadas por animadores de países do Leste Europeu e da ex-União Soviética, onde a criação plástica dos personagens é a pauta para dar início e desenvolver a história, processo característico das animações de autor.

É no trabalho artesanal da madeira que encarnam a vida de uma velha, uma mulher moribunda, um garoto e a Violeta. Ganham vida através da técnica do Stop Motion, que contrasta com o uso das novas tecnologias (uma câmera reflex digital com que foi gravado o curta).

Uma  cena que estimula o prazer do desagradável, que faz do amor, sofrimento e da inocência perversidade:

Chucky, o brinquedo assassino.

Quando ouvimos o nome Chucky a primeira coisa que nos vem na cabeça é o boneco assassino. Isso só comprova o quanto esse filme ainda está presente mesmo depois de 24 anos. Desde o início do filme, na produção do roteiro, foi muito bem estabelecido como seria a aparência do boneco. Nada é por acaso: o fato de ele ser ruivo, ter sardas e olhos azuis são características propositalmente colocadas.

Chucky evolui no decorrer do filme. Começa como um boneco inocente, mas pouco a pouco vai se tornando mais humano e começamos a acreditar de fato que ele está vivo.  A perda das sardas, o engrossamento das sobrancelhas, os olhos que ficam mais profundos acabam com a cara de bonzinho.

O filme é recheado de efeitos especiais. Eles fazem com que, ao assistirmos, esqueçamos que se trata de um brinquedo de criança, como no nome original do filme – “Child’s play”. São usados alguns mecanismos para tornar isso possível. O boneco era controlado por joysticks, como se fosse um robô, tanto o corpo quanto as feições do rosto. Seus movimentos são completamente mecânicos propositalmente, afinal de contas ele é um boneco e se eles tivessem vida seria assim que se moveriam. Além disso, era colocada uma máscara que o deixava ainda mais real.

O making of do filme é muito claro e didático, mostrando passo-a-passo da construção desse personagem que foi e ainda é uma referencia na vida de muitas pessoas.

Como fazer um exorcismo

Sem dúvida, um dos filmes de terror mais marcantes da história do cinema é O Exorcista, de 1973. Mesmo depois de quase quarenta anos, é fundamental para quem gosta do gênero.

Atualmente, os efeitos especiais vistos no filme seriam feitos com facilidade, talvez muito mais realistas. Mas não tem como negar que é exatamente a forma como foram feitos e seu resultado final que tornam O Exorcista um clássico. No documentário, feito pela BBC para a comemoração dos 25 anos de lançamento do filme, a equipe conta diversas histórias e, principalmente, explica como os efeitos foram criados. Podemos ver outras opções de maquiagem até o famoso vômito de sopa de ervilha.

Infelizmente, não encontramos o documentário com legendas em português. Assim, darei destaque para algumas partes.

(De 0:00 a 3:57, os mecanismos na cama e outros efeitos – 7:00 a 8:45, como chegaram ao conceito de maquiagem)

(De 2:28 a 4:22, a cabeça girando e o mecanismo para fazer o vômito)

Recomendo fortemente, quem se interessar por filmes do tipo, que assista ao documentário inteiro. Ótimos comentários sobre como foi a filmagem e uma conversa entre o diretor, William Friedkin, e o escritor do livro original, William Peter Blatty.

Está escurecendo, então chega por hoje.

Uma História de Amor e Fúria – Luiz Bolognesi

Nesta sexta-feira, tivemos a oportunidade de assistir a uma pré-estreia do novo longa de animação “Uma História de Amor e Fúria”, dirigido e escrito por Luiz Bolognesi, com vozes de Selton Mello, Camila Pitanga e Rodrigo Santoro. Após a sessão, um debate incrível com o diretor e outros quatro membros da equipe.

O filme conta, em quatro episódios, uma história do Brasil esquecida por muitos. Com uma grande sensibilidade, vamos de uma tribo tupinambá tentando sobreviver à colonização europeia até 2096, em uma projeção muito realista do que será o Rio de Janeiro no final do século 21. Em todos os episódios, o protagonista luta contra o poder opressor, sempre com sua amada Janaína ao seu lado. Chega de vermos histórias sobre os ganhadores, já era hora de ouvirmos o outro lado. E toda a equipe que produziu “Uma História de Amor e Fúria” fez isso com maestria.

Terminando o debate, pedimos para Luiz Bolognesi falar um pouco dos efeitos especiais presentes no filme. Abaixo, nossa entrevista exclusiva.

Quem se empolgar e quiser assistir, haverá uma última sessão da Mostra Internacional de Cinema no dia 30/10, na Livraria Cultura, às 16h10.

Para saber mais sobre o filme, a página no site da Gullane e a fanpage oficial.

Stopmotion independente

Para inaugurar a parte de entrevistas do Cine FX, conversamos com as alunas de Cinema da FAAP, Ana Lara Brito e Helena Prado, que no momento produzem duas animações em stopmotion por conta própria. Inspiradas pelo “faça você mesmo”, as meninas contam um pouco sobre os bastidores dos projetos.

Construção da maquete.

Por que escolheram o stop motion?

Helena: Maquetes sempre foram um hobbie para mim, acho que gostamos de pequenos detalhes na minha casa, foi fácil me sentir confortável com a idéia de um dia produzir todo um filme dessa forma. A escolha pelo estilo foi mais natural do que parece, a idéia exigia isso. Além disso, sempre gostamos muito de filmes de animação, o que levou a uma fascinação por aprender como fazer cada uma daquelas coisas.

Quais as maiores dificuldades que encontraram?

Ana Lara: Provavelmente a nossa maior dificuldade foi organizar uma equipe para o filme. Foi muito difícil achar pessoas realmente interessadas e que entendessem que animação é muito trabalho duro.

Como aprenderam a fazer?

Ana Lara: Internet! Através de tutorias e comentários de realizadores – e de outras pessoas que fizeram tutorias sobre outras coisas que poderiam ajudar. Um dos motivos pelos quais decidimos começar um blog de nossa autoria para contribuir com essa comunidade.

Construção dos personagens de “Jeremonstro”

Quais materiais vocês mais usam?

Helena: Na produção dos bonecos, com certeza foi arame e epóxi. Mas algo que ninguém pode NUNCA esquecer em uma animação desse tipo é cola, porcas e parafusos. Nada mais desagradável que coisas se movendo entre shots e bonecos caindo por falta de tie-down (técnica para prender os bonecos no chão).

Há muitas coisas que serão feitas apenas na pós-produção?

Quanto mais puder ser resolvido nas filmagens, melhor. Para a pós-produção ficarão apenas alguns chroma keys do céu e um ou outro efeito de luz.

É isso, pessoas. Quem quiser saber mais sobre as animações, além de várias dicas para fazer seu próprio stopmotion, indicamos o blog delas e da equipe: stopmonstro

Blade Runner

Entre a ficção e a realidade.

Seres produto da engenharia genética ao serviço do homem “carentes de sentimentos”, mas com características físicas e intelectuais supra desenvolvidas, enfrentam seu criador, o homem, tentando ganhar algo que nunca tiveram: Liberdade.

Homens policiais com uma missão: acabar a mais perfeita reprodução do ser humano. 117 minutos de filme ilustram, na melhor maneira, um cenário  prospectivo onde a decadência do indivíduo e da natureza é evocada pela tecnologia e a ideia de progresso que hoje continua vigente. Blade Runner é o marco da sociedade do risco, isto é, da incerteza planetária, acompanhada do temor do ser humano ser substituído definitivamente pela máquina.

Blade Runner é, sem dúvida, um daqueles filmes que, com o uso apropriado dos efeitos especiais, consegue manter todo um ambiente de decadência através do manejo da luz-sombra, apesar do excesso de iluminação dos aparelhos eletrônicos. Constrói, ao mesmo tempo, um labirinto tecnológico que dá a sensação de asfixia. O maravilhoso mundo de neon está basado nos quadrinhos de Moebius e Enki Bilal, fazendo do “noir futurista” uma estética transversal do longa-metragem.

Simultaneamente se aborda a questão ética da manipulação genética e suas possíveis consequências, como é o caso do desenvolvimento iminente da inteligência artificial autoprogramada e fora do controle humano.

Este longa-metragem baseado muito livremente no livro “Do Androids Dream of Electric Sheep?”, do escritor Philip K. Dick, configura uma espécie de oráculo moderno, colocando no entretenimento e levando ao debate acadêmico questões que fazem parte de nossa realidade atual. Há 30 anos este filme era classificado como ficção científica, e hoje…?

A noiva cadáver

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A Noiva Cadáver segue bastante o estilo visual de seu diretor, Tim Burton, que sempre faz filmes sombrios e com um toque de humor negro. Criado em 2005 e indicado ao Oscar, essa animação é feita a partir da técnica de stop motion. O stop motion consiste em tirar fotos em sequência, com pequenas alterações entre elas, criando a sensação de movimento. Essa técnica de animação já foi usada em vários outros filmes que tiveram grande sucesso, inclusive o vencedor do Oscar de 2006, Wallace e Grommit: a batalha dos vegetais, que concorria com A Noiva Cadáver.

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Todos os personagens e cenários são feitos de massa de modelar. Os bonecos dos personagens medem, em média, trinta centímetros cada um e são milimétricamente movidos a cada expressão ou ação. Tim Burton manteve sua estética parecida com de outros filmes de sua autoria. O personagem principal Victor, por exemplo, tem uma expressão constantemente sofrida e assustada, que inclusive é muito bem retratada na dublagem de Johnny Deep, que dá um tom frágil e inseguro ao personagem. Já a noiva cadáver possui um leve humor e sarcasmo em sua expressão, dublada por Helena Bonham Carter. A fotografia do filme é muito marcante, com momento de escuridão e profundidade, e momentos de cores e alegria, apesar do tema sombrio e mórbido.

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